Direito: Ser Advogado, sem ser advogado

O Direito, o Exame de Ordem e a Advocacia

Advogado. Do latim, advocatu. “Ad”, aquele que vem junto com “vocatus”, aquele que é incovado. Ou seja, o que é chamado a ajudar. Que lindo! Pelo nome, todos seríamos advogados, certo?

Em termos sim, todos podemos ser advogados. Mas nem todos precisamos advogar no sentido estrito da palavra. Já explico.

Nem todo mundo que conclui um curso de Direito e passa no exame de ordem precisa seguir a carreira profissional dentro de um escritório, de um departamento jurídico ou de um órgão público. É possível manter-se advogado sem fazer petições o tempo todo. E isso você já sabia, mas vou contar um pouco mais da minha história aqui.

Nos meus primeiros anos como advogada, eu fui uma advogada em todos os sentidos da palavra. Fazia audiências, conciliações, respondia clientes de noite, durante as férias, dependia de estagiários, de sites jurídicos e tinha um código dentro da minha bolsa. Seguia um excel detalhado com todos os meus prazos. Nunca deixava o trabalho no escritório. Ele era meu companheiro de sonhos e pesadelos. Acordava com taquicardia de aflição de ter deixado escapar algum prazo, algum documento, alguma juntada de peça. A vida do advogado, aquele em sentido estrito, não é uma vida fácil. E é impressionante como são tantos no Brasil e tão mal remunerados por um dos serviços mais desgastantes e estressantes que se pode conhecer. Mas era a minha vida. E como muitos brasileiros, eu fazia o melhor que podia.

Até que tive a oportunidade de ir conhecer outro país, outra cultura, outras formas de vida. Fui viver na França e lá aprendi que as pessoas, quando saem do trabalho, realmente deixam o trabalho no escritório e são capazes de passar um jantar inteiro sem fazer nenhum comentário relatando o nível de exaustão em que estão. Também são capazes de ouvir outros casos sem relacionar tudo com a vida delas e, de novo, com o quão cansadas estão. Era tudo muito novo para mim. E me impressionava!

Um detalhe: Advogado em francês é avocat, mesma palavra usada para designar abacate (a fruta mesmo). Era só isso. Seguimos com o relato no próximo parágrafo!

Descobri aqui que eu poderia fazer outros trabalhos, usando as minhas outras capacitações (inclusive para varrer chão) e ser feliz desta forma, sem forçosamente aquele anel vermelho que indicava a profissão de doutor. Mesmo assim, nunca deixei de ser advogada. Eu ainda faço peças e viro conselheira quando é preciso. Não só para ajudar parentes e amigos quando há necessidade (e quando posso), como também para exercer aquele sentido amplo da advocacia: estar lá para contribuir.

Uma amiga precisou de alguém para acompanhá-la numa conversa com a polícia. Fui com ela. Quando outra amiga teve o contrato de trabalho negligenciado, eu também estava lá para dar o suporte que a escola de Direito ensinou. Quando a encomenda não chegava na minha casa, era hora de virar a minha própria advogada e fazer valer a minha aprovação no exame de ordem.

Não passei no exame de ordem apenas para…

Mas também não passei no exame da OAB para me tornar advogada e apenas para falar de Direito. E nesta visão ainda mais ampliada, todo ser humano pode se encaixar no conceito. Todos podemos ser a mão estendida, o ombro amigo, o colo e até o puxão de orelha para quem precisar.

É claro que quanto mais conhecimentos tivermos, mais poderemos ajudar. E vale a reflexão, mais poderemos atrapalhar, também. Depende do lado que a gente escolher.

Advogar é um ato de doação, de empatia, e uma arte nobre de defender o que se entende como correto. Penso que temos que fazer essa escolha todos os dias da nossa vida. Dentro e fora dos escritórios. Dentro e fora dos tribunais. Esse é o verdadeiro chamado do Advogado.

Sobre o autor

Diorela Kelles

Brasileira, mineira, advogada, ex-professora de adolescentes, defensora dos animais. Comunicóloga nas horas vagas.

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